Grande cientista Brasileiro fala a respeito do Austismo

Alysson Renato Muotri, um dos biólogos mais importantes do Brasil, fala como a pesquisa dele contribui para entendermos mais sobre o TEA.

Alysson é pioneiro em pesquisas que utiliza genética avançada e células-tronco com objetivo de descobrir as causas do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e estruturar tratamentos mais eficazes.  

Atualmente morando nos Estados Unidos e sendo o diretor do programa de células-tronco na Universidade da Califórnia, Alysson conseguiu utilizar as células-tronco para descobrir as possíveis mutações genéticas que podem provocar alguns “tipos” de autismo. Esse tipo de técnica possibilita acertar o medicamento para combater o transtorno com mais precisão.

No dia 12/09/2018, Muotri estava no Brasil, mais precisamente em Caxias do Sul, para participar do 1º Seminário sobre Autismo da Serra Gaúcha. Lá ele deu uma entrevista par ao jornal Pioneiro. Nós iremos te mostrar algumas respostas a respeito das perguntas que foram feito para ele e você pode ler a entrevista na íntegra aqui,

Pioneiro: O seu trabalho é focado no mapeamento genético dos pacientes. Como isso nos auxilia a entender o autismo? 

Alysson Muotri: O autismo tem duas causas, uma genética e outra ambiental, que a gente chama de “insultos” que acontecem no útero, como uma hipóxia (diminuição do oxigênio para o feto) ou infecção, isso pode causar o transtorno. Mas na maior parte dos casos tem uma base genética. E, durante muito tempo, não sabíamos que base era essa, porque o sequenciamento do material genético era ainda um processo muito caro. Conforme isso vai barateando, vamos sequenciando mais crianças e indivíduos autistas e fazendo uma lista de genes que são causadores do autismo. Hoje, vemos o autismo da mesma forma que o câncer era visto no passado. Antigamente você falava, “fulano tem câncer”. Hoje você não fala mais isso, fala que tem câncer no sangue, ou de pulmão. Tem diferentes tipos e não há uma droga que trate todos, alguns não têm cura e para muitos já tem um tratamento. O autismo está chegando nesse estágio. Estamos definindo, por meio da genética, os diferentes subtipos de autismo. Tudo parece a mesma coisa, mas quando você presta atenção, há alguns que provocam epilepsia, uns que são verbais, outros não. Apesar de terem muita coisa em comum, tem muita coisa diferente. Começa a ficar mais claro do ponto de vista genético. Alguns dos genes descobertos são suspeitos de longa data, são genes que alteram a conexão dos neurônios. Outros foram uma grande surpresa, atuam no metabolismo do DNA dentro da célula. 

Como isso pode possibilitar tratamentos melhores?

Muotri: Olhando para esses genes e descobrindo pela ciência quais são as vias moleculares em que eles atuam, se pensou, será que não se consegue desenhar drogas específicas para cada via? Então os ensaios clínicos, na maior parte dos casos nos Estados Unidos, acontecem através da genética. Se temos uma droga que achamos que funciona para o gene x, y ou z, vamos recrutar autistas com mutações no gene x, y e z. Há pesquisas que já estão muito mais avançadas, em fase clínica, e possivelmente vão trazer uma melhoria. Em outras, são autismos dos quais não se conhecia os genes e não sabemos em que via atuam. O meu laboratório dá uma contribuição para tentar entender como esses genes funcionam dentro da célula, e para isso usamos o modelo de minicérebro. É uma estrutura feita a partir de células-tronco que mimetizam o estado embrionário do desenvolvimento neural humano — como não temos acesso em útero, durante a gravidez, recapitulamos isso em laboratório. A gente coloca mutações em diferentes genes relacionados ao autismo e vê o que acontece com esses minicérebros. Em muitos casos, consegue-se observar alterações claras, e o próximo passo é tentar descobrir drogas que façam a reversão disso. Há áreas, ou subtipos, que já estão mais avançados, temos drogas e já estamos entrando em ensaios clínicos. Em outros casos ainda não temos noção de que droga iria funcionar. É mais ou menos por aí que estamos.  

A comparação com o câncer tem a ver com ligar cada tipo de mutação a certos sintomas e tratamentos? Ou o espectro é mais gradual?

Muotri: Isso quer dizer que ou saberemos o tipo de resposta (para o tratamento), ou se vai ser regressivo ou não. Só que, diferente do câncer, que tem umas dezenas, o autismo talvez seja algumas centenas (de tipos). E, muito possivelmente, eu sempre falo que o futuro do autismo é o fim do autismo. Porque todo o espectro autista vai ser quebrado em diferentes síndromes. Isso já vem acontecendo: conforme definimos a base biológica naquele gene, naquele subtipo, já damos um nome de uma síndrome e  retiramos ele do espectro. Isso está acontecendo cada vez mais frequentemente. Você vê o reflexo disso, nos Estados Unidos, quando os pais recebem o diagnóstico genético e acabam se associando, criando uma página no Facebook, todos com filho com a mesma mutação, e se reúnem para buscar fundos para auxiliar a pesquisa naquele gene específico. E começam a dar apoio. Está muito interessante ver como os pais estão tomando a dianteira. O modelo tradicional era de pedir verba do governo, mas os pais estão tomando a frente nesse processo. 

Quero agradecer ao Jornal Pioneiro por proporcionar essa entrevista de extrema qualidade com um assunto tão importante para nós que somos próximos de pessoas com TEA e reiterar que você pode ler na íntegra as perguntas e respostas aqui.

 

Fonte:

https://bit.ly/2pqTIww

 

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